Nossa História

Carta aberta de uma Advogada Mãe

Hoje é o aniversário de Miguel. Lembro da agitação que cercava sua chegada e de como meus sonhos eram tão diferentes naquela época. Sua gestação foi repleta de correria e problemas a resolver, e mal tive tempo para preparar seu enxoval, comprando fraldas apenas alguns dias antes de seu nascimento. Até o oitavo mês de gravidez, eu continuei trabalhando, cumprindo minhas responsabilidades profissionais, porque sempre me disseram que a gravidez não é uma doença e a vida deve seguir seu curso normal.

Nesse período, meu esposo foi transferido, adicionando mais estresse à situação com uma mudança. Começou uma corrida frenética, envolvendo logística, escola para nosso filho Gabriel, cuidar do nosso cachorro Thor, despedidas, questões profissionais, e, finalmente, a mudança para o Rio de Janeiro. Lembro-me de noites sem dormir, tentando organizar nossa nova casa.​

Por muito tempo, carreguei um sentimento de culpa por não ter descansado e por não ter me afastado dos problemas pessoais e familiares que poderiam afetar a gravidez de Miguel. Só mais tarde descobri sobre a epigenética e como uma gravidez tranquila e saudável é crucial para uma mãe não se sentir culpada. Este é um conselho que gostaria de compartilhar com as grávidas, pois agora entendo a importância disso.

Voltando a Miguel, ele é o centro desta história. Há três anos, ele veio ao mundo sem o autismo fazer parte do roteiro. Ele trouxe alegria para nossas vidas, sendo muito esperado e amado por seu irmão, seu pai, nosso cachorro Thor e por mim.

Seu nascimento foi tranquilo, e seu desenvolvimento inicial era típico de qualquer criança. Ele atingia todos os marcos de desenvolvimento, interagia, respondia com sorrisos, começou a falar palavras no tempo certo, e tudo parecia normal.

Entretanto, entre 8 e 10 meses, Miguel começou a olhar fixamente para um ponto sem responder a chamados, parecendo perdido. Senti a necessidade de observá-lo mais de perto. Ele parava de olhar para o nada depois de um curto período, mas, para mim, parecia uma eternidade. 

Miguel parou de responder ao seu nome, e foi quando comecei a suspeitar do autismo. Aos 1 ano, ele ainda não falava, não sorria e não mostrava expressões faciais. Minha intuição de mãe dizia que algo não estava certo, mesmo que alguns profissionais afirmassem o contrário.

Assim começou nossa jornada, e acreditar em mim foi uma batalha. Contratei profissionais para realizar terapias em Miguel, e essas terapias ajudaram a confirmar o diagnóstico.

Lembro-me do dia em que li que “o autismo não tem cura”, o que me abalou, mas apenas por um breve período. Todos os meus sonhos eram alcançáveis, e o autismo não deveria ser uma barreira. Decidi buscar tratamento.

Morávamos em uma cidade nova, sem conhecer ninguém, sem família por perto, e o Mathias não podia estar presente devido ao lockdown. Miguel e seu irmão Gabriel eram minha única prioridade. Chorei, mas também vi uma oportunidade de ajudar no desenvolvimento de Miguel.

No meio de uma pandemia, o autismo entrou em nossas vidas e me deu uma força inesperada. Tive que me familiarizar com todas as clínicas, neuropediatras e terapeutas de Recife, mesmo antes de receber o diagnóstico oficial. Miguel começou a fazer terapias antes mesmo do diagnóstico.

Quando a primeira clínica multidisciplinar abriu, estávamos lá. O tempo para chorar era o trajeto até a clínica, quando permitia minhas lágrimas. Como mãe, eu nunca quis que meu filho passasse por isso, mas tive que lutar por um diagnóstico e tratamento adequados.

Em meio a tudo isso, Miguel me ensinou a desacelerar, a apreciar a vida com mais calma e a encontrar alegria em pequenos momentos. Ele me mostrou que a vida não precisa ser planejada minuciosamente, e sim vivida um dia de cada vez.

Aprendi a ser mais paciente, a não criar expectativas irreais, a valorizar a companhia de pessoas positivas e a priorizar minha saúde mental. Miguel me mostrou que minha missão não está centrada em mim, mas em contribuir para um mundo melhor, especialmente para pessoas com autismo.

Miguel mudou meu caminho, retirou minha paixão pela ciência criminal e me direcionou para o autismo e suas complexidades. Ele me tornou uma pessoa melhor. Com ele, descobri a felicidade nas coisas simples e encontrei propósito em ajudar outras famílias que enfrentam desafios semelhantes.

Hoje, no aniversário de Miguel, posso dizer que ganhamos muito com sua chegada. Agradeço por ser sua mãe e por ver o mundo de uma forma mais rica e significativa. Sou grata por cada pequena conquista que ele alcança e pelo aprendizado que ele trouxe à nossa vida.

Miguel, com apenas 3 anos, é um verdadeiro gigante. Não temos medo do autismo; ele nos fortaleceu. Miguel é minha inspiração, e estou disposta a ajudar outras crianças e famílias que enfrentam desafios semelhantes. Miguel, você é o meu propósito, minha missão, minha inspiração e meu farol. Eu te amo mais do que qualquer amor que eu conheça. O autismo não nos venceu; ele nos tornou mais fortes.

Daiana Mathias

Advogada e  Mãe do Miguel

Livro AUTISMO: QUEBRANDO O TABU DA NEGAÇÃO E DO PRECONCEITO

A Importância da Família

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A importância da família como um apoio para uma criança autista é fundamental e não pode ser subestimada. A família desempenha um papel crucial no desenvolvimento, bem-estar e qualidade de vida de uma criança com autismo.

SE TIVER IRMÃOS,
MELHOR SERÁ

Capacite os irmãos para que eles entendam o
TEA (Transtorno do Espectro Autista) e saibam ajudá-lo da melhor forma.

A FIGURA PATERNA É ESSENCIAL

Se o pai for presente na vida da criança, e se aprofundar no conhecimento do autismo do seu filho(a), será uma figura fundamental em todo o processo de desenvolvimento dele(a).

MATERNIDADE ATÍPICA

Eu sei que muitas das vezes você se sentirá sozinha e cansada. Aprenda a descansar para continuar a jornada. O caminho não será fácil, por isso o descanso é essencial.